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Clarabóia

Clarabóia

23.07.20

VOX | Christina Dalcher


Raquel Patrício

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No livro "VOX" acompanhamos os Estados Unidos da América a atravessar uma fase diferente (talvez já tenha sido mais diferente, assustadoramente) da atual. Devido à eleição de um novo presidente, as mulheres passaram a ter um papel secundário na sociedade. Não podiam ter cargos políticos, não podiam ter carreiras de sucesso, o seu objetivo era exclusivamente tomar conta da casa e da sua família. Para além disso, todas as mulheres tinham uma pulseira eletrónica que contabilizava as palavras que cada uma dizia por dia, tendo apenas 100 palavras disponíveis para 24 horas. Se ultrapassassem este número, a pulseira emitia um choque elétrico que ia aumentando de intensidade quantas mais palavras fossem proferidas. 

A personagem principal do enredo é Jean, uma ex-neurolinguista, casada e com 4 filhos - 3 rapazes e 1 rapariga, Sonia, com apenas 10 anos, mas que também era obrigada a obedecer às regras implementadas. As disciplinas que os rapazes e as raparigas frequentavam na escola eram distintas, pois o seu papel na sociedade também seria completamente antagónico. 

Ao longo do livro, é através dos olhos desta personagem e dos seus diálogos internos que nos são descritas as normas e leis pelas quais se rege os EUA, as limitações, as proibições e os atos que então passaram a ser considerados crimes (embora, anteriormente, fossem apenas questões banais). Percebemos a frustação e o sofrimento destas mulheres, por terem que abandonar as suas carreiras e por lhes ter sido retirada a voz e o direito de opinião. Quanto ao enredo do livro, fico-me por aqui para não contar demais para quem ainda o vai ler!

Ao lermos "VOX" facilmente somos transportados para o universo da "História de uma Serva", de Margaret Atwood. Os paralelismos entre os argumentos das duas histórias são muitos! Contudo, no meu ponto de vista, a escrita e o ritmo de "VOX" deixam muito a desejar e ficam bastante atrás do nível que Margaret Atwood consegue atingir na sua distopia. Sinceramente, achei que a história inicialmente teve um ritmo demasiado lento (parecia que estávamos a assistir a uma novela com um romance demasiado previsível e cliché) e, no final, quando a ação começa a aquecer e atingimos o clímax, é tudo demasiado apressado, não tendo sido explorado, tão bem quanto eu gostaria, o desfecho de algumas personagens muito interessantes. Se calhar, tinha as minhas expectativas demasiado elevadas para este livro, pois a quantidade de comentários, recomendações e críticas positivas que lhe são atribuídos na internet são imensos!

Assim, acho tremendamente injusto este romance ser sequer comparado à "História de uma Serva" pois estão em níveis muito distintos, quer na escrita e na profundidade com que exploram as personagens e os seus sentimentos, como na passagem para o leitor do clima que toda a civilização experienciava e do contexto em que estavam inseridos. 

Avaliação: 6/10