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Clarabóia

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11.07.20

Os Testamentos | Margaret Atwood


Raquel Patrício

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Trago-vos a review deste magnífico livro - "Os Testamentos" - continuação de um dos melhores livros que li este ano "A História de Uma Serva", da mesma autora (podem consultar a minha opinião deste livro aqui). 

No livro "Os Testamentos" temos o relato, na primeira pessoa, de três personagens distintas que nos vão descrevendo o quotidiano de Gileade. Este livro vem dar resposta a algumas questões que ficaram em aberto no livro anterior como, por exemplo, como é que tudo começou, quais foram os processos para a criação desta República, entre outros. 

Uma das personagens que narra esta história é a Tia Lydia, uma personagem várias vezes mencionada no livro anterior, como sendo bastante severa e rígida. A Tia Lydia é uma das Tias mais antigas de Gileade, considerada como uma das principais fundadoras das doutrinas e procedimentos que regem a vivência neste local. Contudo, através dos seus relatos, percebemos como esta jovem advogada foi torturada e obrigada a escolher entre a morte ou a vida (mas, no caso de sobreviver, condicionada para obedecer eternamente a Gileade). Esta mulher corajosa optou pela vida e, no seu íntimo, prometeu um dia vingar-se e contribuir para a destruição desta República. A Tia Lydia era uma espiã que passava várias informações de relevo para fora e que manipulava as pessoas no interior de Gileade graças ao poder que adquiriu com a sua firmeza e inteligência. A Tia Lydia mantinha uma espécie de diário (algo extremamente proibido pois as mulheres não tinham direito a escrever) no qual descrevia vários episódios impactantes que ocorriam neste local.

O nosso tempo juntos está a aproximar-se do fim, meu leitor. Possivelmente, verás estas minhas páginas como uma frágil caixa de tesouros a ser aberta com o maior dos cuidados. É possível que as rasgues ou as queimes: isso acontece muito às palavras. 

Outra das personagens que nos é apresentada neste livro é Agnes, uma menina que nasceu e sempre viveu em Gileade e que, pelo facto de ter sido toda a sua vida condicionada por estes costumes, tem uma visão muito característica e toldada da realidade. Porém, à medida que vai crescendo, vai questionando certas crenças que lhe foram ensinadas durante toda a sua vida como verdades universais. 

A próxima coisa que a Tia Gabbana fez foi trazer uma equipa de guarda-roupa, palavras da Paula, dado eu ser considerada incapaz de escolher o que usaria até ao meu casamento e, especialmente, no casamento propriamente dito. Tem de se perceber que eu não era alguém por direito próprio - embora pertencesse à classe priveligiada, eu não passava de uma rapariga confinada ao matrimónio. Matrimónio: tinha um tom metálico abafado, como uma porta de ferro a fechar-se.

Por fim, existe uma terceira personagem com grande destaque neste livro, a jovem Nicole que foi "roubada" de Gileade pela sua mãe, uma Serva - fugiram para o Canadá quando a mesma era bebé (neste local, as Servas servem apenas para procriar e, os seus filhos, não são sua propriedade). Em Gileade, a bebé Nicole era como um mito ou um culto: Gileade anunciava que queria recuperar a bebé para o seu legítimo lugar. Nicole, agora denominada de Daisy, não tendo conhecimento sobre a sua verdadeira identidade, vivia como uma adolescente completamente alienada da realidade, com opiniões levianas sobre os problemas mundiais (neste caso, sobre Gileade) mas querendo fazer algo significativo. 

Disse que supostamente se dedicavam a uma vida santa e virtuosa, mas, quando se é fanático, pode-se acreditar que se vive virtuosamente ao mesmo tempo que se mata pessoas. Os fanáticos acham que matar pessoas é virtuoso, ou matar certos tipos de pessoas.

Este livro é uma continuação incrível do anterior "A História de uma Serva"! Dois livros que, na minha opinião, se complementam para criar um retrato mais sólido desta civilização descrita por Atwood e que, infelizmente, ainda tem algumas semelhanças com a atualidade. Uma distopia que nos obriga a pensar e a refletir sobre o papel da mulher na sociedade, a forma como é tratada relativamente aos homens e a sua objetificação. 

Durante algum tempo, quase acreditei compreender aquilo em que devia acreditar. Contava-me entre os fiéis pela mesma razão que tantos outros em Gileade: por ser menos perigoso. De que serve uma pessoa atirar-se para a frente de um rolo compressor por princípios morais e ser esmagada, plana como uma meia de onde saiu o pé? É melhor fundir-se na multidão, essa multidão untuosa, que destila ódio, que louva piamente. É melhor atirar pedras do que levar com elas. Ou é melhor para as hipóteses de continuar viva. 

Vejo-te como uma mulher jovem, inteligente, ambiciosa. Vais procurar criar um nicho para ti, sejam quais forem as cavernas do pensamento dominante, sombrias e cheias de eco que ainda existam no teu tempo. 

Avaliação: 10/10