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Clarabóia

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14.07.21

Norwegian Wood | Haruki Murakami


Raquel Patrício

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Bem, confesso que nem sei por onde começar... Este livro apanhou-me desprevenida, não imaginei que me fosse tocar tanto. Já tinha lido Murakami e não tinha ficado fascinada, confesso. Só tinha lido "As Crónicas do Pássaro de Corda" e, apesar de ter gostado, não fiquei deslumbrada. Na altura, não consegui perceber o fascínio em torno do autor. Porém, apesar disso, continuava curiosa para ler mais qualquer coisa dele. Vi algumas críticas a "Norwegian Wood", afirmando que seria um bom livro para iniciar Murakami e que talvez fosse o livro com uma escrita mais tradicional. Por isso, decidi comprá-lo. 

Que boa decisão que tomei. Este livro é lindíssimo e apresenta uma mensagem subliminar que é tocante. A história começa com Toru Watanabe, de 37 anos, a ser transportado para as memórias do seu passado ao som da música Norwegian Wood, dos Beatles. Dá-se, assim, o ponto de partida para revisitarmos a história deste jovem na sua adolescência e acompanharmos os acontecimentos que o marcaram profundamente. Quando tinha 17 anos, Toru tinha uma relação formidável com o seu melhor amigo, Kizuki. Dir-se-ia que, como qualquer adolescente, este amigo era o alicerce da sua existência, a sua maior companhia. Numa noite, sem ninguém prever, Kizuki suicida-se. Este é o acontecimento que marca a mudança na vida de Toru e que potencia uma alteração na forma como este encara o mundo e a vida. 

Toru acaba por criar uma forte relação com Naoko, a namorada do seu melhor amigo, por quem se apaixona. Porém, Naoko nunca ultrapassou bem a morte do seu namorado e acaba por ser institucionalizada numa espécie de sanatório moderno, meio alternativo. Acompanhamos Toru na sua entrada na universidade, a lidar com todas as emoções e dúvidas típicas desta fase, e a sua díficil adaptação a esta nova realidade. Durante estes anos da faculdade, Toru conhece Midori, uma rapariga muito especial e excêntrica que se torna a sua melhor amiga. 

- O mais importante é não teres pressa - disse Reiko, batendo a bola. - É um conselho que te dou. Não te precipites. Mesmo que a situação esteja de tal modo confusa que não saibas como sair dela, evita perder a paciência e forçar as coisas. Tens de desenredrar os fios, um por um, demore essa operação o tempo que demorar. 

Ao contrário do que é característico na escrita de Murakami, da sua descrição de mundos fantásticos e surreais, com acontecimentos bizarros, este livro é bastante real. Tem uma escrita muito clara e objetiva, sem floreados nem metáforas. Em algumas partes, parece mesmo "crua". É também um livro com uma carga sexual bastante forte mas que dá, de certa forma, veracidade à história - estamos a falar da vida de um adolescente. Aborda temáticas muito fortes como o suicídio e o sentido da vida, mas de forma directa. Ou seja, vemos, na primeira pessoa, alguém a constantemente tentar agarrar-se à vida, mesmo quando não parece ter nada que o prenda. Além disso, Toru expressava constantemente a sua dificuldade em relacionar-se com as pessoas e perceber que sentia amor. Parecia que lhe era impossível estabelecer uma relação emocional com alguém.

Adorei esta leitura. É um livro que, de uma forma simples e crua, nos mostra como devemos sempre continuar a lutar pela vida, mesmo quando não parece valer a pena. De sermos resilientes e de lutarmos por nós, quando todas as forças nos puxam no sentido inverso. É um livro que explora muito a importância e necessidade de seguir em frente. O que percebemos neste livro é que, quando paramos de fugir e de nos tentarmos afogar na dor, percebemos a beleza que afinal existe (e sempre existiu) ao nosso redor e permitimo-nos ser felizes. 

Fiquei tão embrenhada nesta leitura que comecei, logo a seguir, o volume 1 de 1Q84, também de Murakami. E por aqui, fãs do autor? Que livros já leram dele?

Avaliação: 9/10

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