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Clarabóia

Clarabóia

13.01.22

Mundo Belo, Onde Estás? | Sally Rooney


Raquel Patrício

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Como fã assumidíssima de tudo o que a Sally Rooney escreve, não podia deixar de comprar (e devorar) o seu novo livro "Mundo Belo, Onde Estás?" mal este saiu. Já o disse no passado, esta senhora tem uma capacidade incrível de nos transportar para o interior das suas personagens, provocar-nos sensações tão palpáveis como se fossemos nós próprios a viver aquela história. Agora, antes de passarmos para a review propriamente dita, vamos tirar uns minutos de silêncio pela triste capa da versão portuguesa desta adaptação... a sério, o que é isto!!! 

A história deste novo livro é centrada em quatro personagens principais: duas amigas de longa data, Alice e Eileen; Simon - um amigo de Eileen desde a sua infância; e Felix, um date do Tinder de Alice. O enredo desenrola-se sempre entre a perspetiva de Alice, uma jovem escritora de renome, e de Eileen, intercalando capítulos em que um narrador descreve os acontecimentos das suas vidas e outros que são apenas trocas de e-mails entre as duas. Não existe nenhum acontecimento extraordinário de ação, toda a magia do livro acontece nos diálogos e nas interações subliminares entre estas quatro personagens. 

Para ser sincera, não sei se foi por estar com demasiadas expetativas para esta leitura e já estar a ansiá-la há meses, mas fiquei ligeiramente desiludida. Acho que este livro, ao contrário do Normal People e do Conversations with Friends, perde-se muito em descrições do espaço envolvente completamente aleatórias e que não acrescentam nada à história. Fiquei com a sensação que entraram ali para encher umas páginas. Depois, outro ponto que não gostei (ou que, pelo menos, não me consegui relacionar) foi a relação entre as personagens (Alice e Felix e, por outro lado, Eileen e Simon). No meu ponto de vista, a complexidade das questões pessoais com que cada um se debatia era tal que, a certo ponto, deixaram de fazer sentido. 

E detestamos as pessoas por cometerem erros, muito mais do que as amamos por se saírem bem, ao ponto da maneia mais fácil de viver ser não fazer nada, não dizer nada e não amar ninguém.

O que mais gostei no livro foi a perspetiva das quatro personagens, em fases tão diferentes das suas vidas, numa idade tão próxima com a minha, muito perto dos 30. Acabamos por ser uma geração tão atípica, em que aos 30 anos, temos pessoas completamente resolvidas e com uma vida "delineada" e outros que ainda estão a tentar perceber aquilo que faz sentido para si. E, claro, a forma como a Sally Rooney o transpõe em palavras é só sublime. Deixo-vos com uma das muitas citações que tirei:

E desde que o vi que me sinto pior a cada hora que passa. Ou será apenas o facto de a dor que sinto neste momento ser tão intensa que transcende a minha capacidade de reconstruir a dor que senti na altura? Em teoria, o sofrimento recordado nunca é tão doloroso como o sofrimento atual, mesmo que tenha realmente sido muito pior; não conseguimos recordar o quão pior foi porque recordar é menos intenso do que experimentar. Talvez por isso as pessoas de meia-idade estejam convencidas de que os seus pensamentos e sentimentos são mais importantes do que os dos jovens, porque têm apenas uma recordação vaga dos seus sentimentos de juventude, ao mesmo tempo que permitem que as suas experiências presentes dominem a forma como olham para a vida.

Avaliação: 7/10