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Clarabóia

Clarabóia

21.11.20

Minha Sombria Vanessa | Kate Elizabeth Russel


Raquel Patrício

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Este foi o primeiro livro que li da Kate Russel. Já tinha lido sobre esta história, sabia que tinha um tema forte e que, em algumas passagens, provavelmente não seria uma leitura fácil.

A personagem central do livro é Vanessa. A história decorre em simultâneo entre o presente (2017) e o passado (2000), altura em que Vanessa tinha 15 anos. Vanessa era uma adolescente bastante solitária, que estudava num colégio privado, longe da sua casa, mas que não tinha amigas. Refugiava-se na sua grande paixão: a escrita. Durante o seu ano letivo, o seu professor de literatura, Jacob Strane, começa a dar-lhe mais atenção, a recomendar-lhe livros, a ler os seus poemas... Vanessa sente-se bem com toda esta atenção, ainda por cima vinda do seu professor, e nota-se que não entende bem aquilo que está a sentir: será atração, ou estará mesmo apaixonada? Não é estranho gostar do seu professor que tem mais de 40 anos? Ela não se sente propriamente atraída por ele fisicamente, mas gosta efetivamente de se sentir especial e de ser o centro das atenções de alguém. 

A relação entre os dois começa a avançar e embora Vanessa não o considere um abuso, claramente, para o leitor, é muito fácil identificar que é. Strane é que faz os primeiros avanços, toca-lhe pela primeira vez, beija-a, convida-a a dormir em sua casa e acaba por acontecer a primeira violação. Vanessa nunca admite que foi violada - para ela, ela tinha de querer e, com o tempo, acabou mesmo por desejá-lo. 

Enquanto temos capítulos que nos contam a história do passado de Vanessa, temos outros intercalados que nos relatam o presente. Como é que agora, com 32 anos, Vanessa seguiu a sua vida após o final desta relação manipuladora e problemática. É bastante evidente que Vanessa nunca superou o trauma do que lhe aconteceu e que ainda continua bastante agarrada ao passado, visto nunca ter tido uma conclusão. 

Por vezes, sinto que é só isso que faço sempre que o contacto - tento assombar, fazê-lo remontar no tempo, pedir-lhe para me contar outra vez o que aconteceu. Fazer-me compreender de uma vez por todas. Porque eu ainda estou presa aqui. Não consigo avançar.

A perspetiva do livro sobre a vítima, como é que lida com toda a situação no presente e no futuro, é muito interessante, mas não é nova (um livro com uma perspetiva também muito cativante sobre este tema é o A Culpa é Minha, da Louise O'Neill, cuja review também está aqui no blog). Apesar de não ser um tema novo, nunca é demais abordar estas questões. Porém, o que achei mais interessante foi o facto de, neste caso, a Vanessa não querer admitir que aquilo que sofreu era um abuso, mesmo quando é confrontada com evidências de que o Strane fazia isso a outras raparigas. Fiquei boquiaberta como o nível de manipulação entre um agressor e a vítima pode ser tanto, ao ponto da vítima se sentir a agressora e culpada. Além disso, outra coisa que me cativou bastante, foi a pressão que a vítima sente para se expor, para contar a sua história. A Vanessa não tinha esta visão, não queria partilhar, e chegava mesmo a questionar-se se não tinha o direito à sua privacidade, a lidar com a dor à sua maneira.

Então porquê que dizem sempre isto? Não é só esta jornalista. É cada mulher que se chega à frente. Mas se alguém não se quiser chegar à frente, e contar ao mundo toda e qualquer coisa má que lhe aconteceu, então é o quê? Fraca? Egoísta?

Em suma, achei ser um livro com uma escrita bastante fluída e que nos puxa para ler sempre mais uma página. Como disse, acho que nunca é demais falar sobre este tema porque, infelizmente, ainda existe muito estigma e preconceito por parte da sociedade ao ponto de condenarmos a própria vítima. Em relação a este tema, parece que toda a gente tem uma opinião a dar, todos somos capazes de fazer análises fundamentadas às pessoas envolvidas e, por vezes, esquecemo-nos de respeitar o espaço que as pessoas sofrem necessitam.

Avaliação: 7,5/10