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Clarabóia

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26.05.20

Flores | Afonso Cruz


Raquel Patrício

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Apesar de já ter lido inúmeras críticas positivas e rasgados elogios à escrita de Afonso Cruz, nunca tinha tido oportunidade de ler nada deste autor. A minha estreia foi com o seu romance "Flores", publicado em 2015, e confesso que adorei!

A história deste livro centra-se na vida de dois personagens principais: Kevin - um jornalista de meia idade, com uma crise matrimonial e entediado com a sua vida; e com o Sr. Ulme - um senhor de alguma idade que sofre de uma doença que o fez perder todas as suas memórias de infância e vizinho de Kevin. Um dia, o Sr. Ulme está em casa de Kevin e conta-lhe que nunca viu uma mulher nua. Kevin fica admirado com esta revelação e fica a conhecer a doença do Sr. Ulme. Assim, determina que irá conversar com todas as pessoas do passado do seu vizinho com o objetivo de recuperar as memórias do mesmo. 

O livro é uma viagem sobre o passado do Sr. Ulme, de como a mesma pessoa pode ser amada, admirada e, ao mesmo tempo, odiada. Todos nós somos apenas versões de nós mesmos, aos olhos dos outros. Além disso, o livro explora muito bem a questão da monotonia e da rotina e os estragos que estas provocam nas relações. Fala da importância do amor ser cultivado e não destruído por problemas mundanos e preocupações mesquinhas. 

Tenho a certeza que a vida morre com a rotina e não com a morte, e que o hábito nos petrifica, um dia olhamo-nos ao espelho e estamos transformados em estátuas (...)

O que mais gostei neste livro foi a forma como Afonso Cruz transmite com tanta simplicidade as emoções que estão a ser vivenciadas por cada uma das personagens. A sua escrita é tão fluída - o autor consegue transmitir pensamentos com uma carga emocional muito grande de uma forma muito clara e fácil. 

Nos últimos tempos, quando sinto os lábios da Clarisse a tocarem nos meus, comprovo que não têm história, já não convocam o primeiro beijo que demos. Creio que, numa relação, o beijo terá sempre de manter a densidade do primeiro, a história de uma vida, todos os pores-do-sol, todas as palavras murmuradas no escuro, toda a certeza do amor. Mas já não é assim. Agora sabem às vacinas que tínhamos de dar à cadela (já morreu), às conversas com o diretor da escola, à loiça por lavar, à lâmpada que falta mudar, às infiltrações no tecto, às reuniões de condomínio. Toco levemente os lábios dela sabe-me à rotina, às finanças, ao barulho da máquina de lavar roupa. Beijamo-nos como quem faz a cama.

Achei este livro repleto de passagens brilhantes, não parei de anotar frases. Um livro que recomendo! De certeza que irei ter mais livros de Afonso Cruz nas minhas próximas leituras.

E vocês, que livros deste autor já leram?

Avaliação: 8/10

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