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Clarabóia

Clarabóia

30.07.20

A vida oculta das coisas | Cláudia Cruz Santos


Raquel Patrício

"A vida oculta das coisas" chegou até mim através do Book Gang da Helena Magalhães. À primeira vista, foi um livro que não me disse nada mas, depois de alguma pesquisa, achei que tinha potencial para ser uma grande história!

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A história centra-se num conjunto de personagem, em princípio completamente díspares, mas que, por obra do destino, acabam por ter as suas vidas cruzadas. Viriato é um jovem na casa dos 30 anos com um futuro risonho pela frente. A sua avó, Alice, cai e acaba por ser hospitalizada. Neste local, Viriato conhece Carolina, uma jovem misteriosa que o encanta desde a primeira vista e com quem acaba por ter uma ligação peculiar.

Num dia que não se escolhe e que nasce aparentemente igual a todos os outros, dá-se a revolução da chegada do outro imprevisível, que até então andava pelo mundo perdido na multidão. Esse outro desconhecido que surge muda tudo, tornando-se vital ou letal, fonte de alegria ou de desgraça, flor ou espinho, sorriso ou lágrima. Ou, muitas vezes, tudo ao mesmo tempo. Ou tudo de cada vez. Depende. E nunca se sabe. 

É através de Alberto, chefe de Viriato, que o jovem conhece uma casa cinzenta que, na verdade, é uma casa de prostituição. Aqui, apaixona-se por uma rapariga brasileira, Alma, que vive aprisionada e em condições preversas. Viriato garante ajudar Alma a fugir, tal como as suas duas companheiras e amigas, Luba e Asali, também prisioneiras. 

A história explora muito bem as condições precárias e perigosas em que algumas jovens vivem em certos países, correndo perigo de vida diariamente, com o risco de serem raptadas e usadas para fins lucrativos. O tráfico de mulheres e o seu uso na prostituição é bem detalhado neste livro, chocando-nos com a crueldade e frieza que, infelizmente, sabemos ainda ser real. Além do argumento, a escrita de Cláudia Cruz Santos é imensamente rica, coerente e apelativa, com passagens incríveis e memoráveis. 

Há uma grande diferença entre a audácia e a coragem. Quando somos jovens é-nos fácil sermos audazes, porque a audácia é instantânea, irrefletida, é dela que precisamos para mergulharmos numa piscina à noite sem sabermos o que está no fundo daquela água tão escura, para saltarmos pela primeira vez de um avião com um pára-quedas, para passarmos umas férias sozinhos num país longínquo. Mas a coragem é outra coisa, é coisa de gente crescida. A coragem é necessária para darmos um rumo diferente à nossa vida, já cientes daquilo que vamos perder e desconhecendo ainda tudo o que podemos ganhar, se é que podemos. A coragem pressupõe reflexão e escolhas, mudanças profundas, pessoas que ficam para trás.

O único ponto do enredo que não gostei tanto foi a personagem de Carolina, que achei um pouco desnecessária, sem acrescentar nada de significativo à história. Além disso, levou a associarmos a Viriato a imagem de um jovem que não tem a certeza daquilo que quer e que, num dia dorme com uma mulher que o encanta e fascina, e no dia seguinte apaixona-se por outra. Acho que a personagem de Viriato e a coragem que revelou em alguns momentos, não merecia ser associado a esta indecisão e incoerência. Na minha opinião, os poucos pontos em que esta personagem foi considerada relevante podiam ser resolvidos de outra forma, sem haver necessidade da mesma existir no enredo. 

Mas, em suma, é um livro incrível que recomendo!

Avaliação: 7,5/10