Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Clarabóia

Clarabóia

22.09.21

A Peregrinação do Rapaz sem Cor | Haruki Murakami


Raquel Patrício

IMG_4644.jpg

Quem me acompanha sabe que, recentemente, tenho vivido uma paixão intensa por Murakami. É um sentimento inesperado e difícil de explicar: os seus livros cativam-nos não só pela sua escrita tecnicamente perfeita mas, sobretudo, pela firme e certeira descrição dos acontecimentos, pelas suas personagens introspetivas que percorrem sempre caminhos duros e de crescimento e, por fim, pelo seu toque místico que confere um quê de surrealidade e de magia à história.

Fui induzida a comprar este livro simplesmente porque fiquei rendida à beleza desta capa, confesso (quem nunca). Assim que o comecei a ler, achei que tinha bastantes pontos em comum com Norwegian Wood, do mesmo autor. Ambos têm personagens centrais simples, que são obrigados a lidar com um duro acontecimento que provoca transformações internas drásticas. Apesar de terem bastantes semelhanças, achei que Norwegian Wood foi um livro mais completo, embora este também seja bastante bom!

Tsukuru Tazaki é um jovem adolescente que constitui uma peça fundamental no seu grupo de 5 amigos. Porém, ao contrário dos restantes quatro, Tsukuru é o único que não tem no seu nome uma cor. Os restantes elementos que formam o grupo são dois rapazes - Aka (vermelho) e Ao (azul) - e duas raparigas - Shiro (branco) e Kuro (preto). Por esse motivo, desde sempre, Tsukuru formou uma imagem sua de uma pessoa incolor, sem nada de impactante a acrescentar. Após a sua entrada na faculdade, em Tóquio, os seus amigos cortaram relações consigo, sem nenhuma explicação. 

Tsukuru entra, assim, numa fase bastante negra da sua vida. Para ele, este grupo de amigos era das poucas coisas que realmente valorizava e que o faziam sentir vivo, na sua verdadeira essência. Os anos passaram e, aos 36 anos, Tsukuru conhece uma jovem que o faz apaixonar-se, Sara. Sara acaba por ser uma peça fundamental nesta história pois é ela que impele Tsukuru a ir procurar respostas ao seu passado, a reencontrar os seus amigos após 15 anos e a tentar perceber o motivo do afastamento. Tsukuru percebe que esta situação condicionou toda a sua vida e todos os seus relacionamentos. Entra numa viagem de (auto)descoberta que irá ser fundamental para o seu futuro.

O que une o coração das pessoas não é apenas a harmonia. Os corações humanos unem-se através dos desgostos sofridos. Ferida com ferida. Dor com dor. Fragilidade com fragilidade. Não existe silêncio sem um grito de dor, não existe perdão sem derramamento de sangue, não existe aceitação sem a inevitável passagem pelo sentimento de perda. É aqui que se encontram as raízes da verdadeira harmonia.

Apesar da simples história que está por detrás deste livro, os temas abordados nada têm de simples. Suicídio, violação, sentimentos de ansiedade e de incompatibilidade com o mundo, são alguns dos temas presentes. O que mais gostei no livro, algo muito comum em Murakami, foi a escrita altamente detalhada dos sentimentos de Tsukuru, desde o início da sua adolescência até ao momento presente. Acompanhá-lo a afundar-se na tristeza, o seu reeguer até à normalidade, o alinhamento com a engrenagem do quotidiano e, por fim, o seu grito silencioso de transformação. Incrível como este autor consegue passar tão bem estas mensagens. Este livro acompanha verdadeiramente a peregrinação de Tsukuru na sua auto-descoberta; mas podia muito bem ser qualquer um de nós.

Por mais gratificante que seja o resultado final de investirmos em nós e trabalharmos sobre os nossos medos e inseguranças, é um processo realmente doloroso que leva muitos a desistirem a meio. Mas Tsukuru persistiu, foi até ao fundo dos seus problemas e saiu de lá como se fosse outra pessoa.

É um livro que nos faz refletir bastante sobre a nossa própria jornada individual - que caminho traçaste até agora e para onde queres ir a seguir?

Avaliaçao: 7,5/10