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Clarabóia

Clarabóia

19.01.21

A Mulher | Meg Wolitzer


Raquel Patrício

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Hoje venho falar-vos da minha primeira leitura no meu novo Kobo. O livro que escolhi foi "A Muher", da Meg Wolitzer (autora do livro "Os Interessantes"). Nunca tinha lido nada da autora, apesar de "Os Interessantes" já andar na minha lista de "para ler" há bastante tempo. Como queria um livro um pouco mais pequeno para experimentar o meu e-reader, li a sinopse deste e decidi arriscar. 

A história é narrada por Joan Castleman (a mulher), uma sexagenária casada com um escritor famoso, Joe Castleman, que acaba de vencer o Prémio Helsínquia, um prémio literário de grande prestígio. Assim, o casal desloca-se à Finlândia com o objetivo de Joe receber o tão esperado prémio. Durante esta viagem, Joan vai contando aos leitores a sua história, desde que começou como uma aluna promissora de Joe, como se envolveram e como foi o desenrolar da sua relação. 

Beijou-me e beijou-me, e apesar de parecer que queria lamber e engolir-me o talento, a perceção, o que que que fosse que ele achava que eu tinha, eu continuava a sentir que, de nós os dois, era ele o importante, e eu estava inacabada. Ele poderia acabar-me, pensei; poderia proporcionar-me as coisas de que eu precisava para me tornar de facto uma pessoa completa. 

Joan e Joe conhecem-se entre os anos 50 e 60 e existe no livro uma forte contextualização da mentalidade da sociedade, que valorizava os homens e menosprezava as mulheres. Estas não podiam ter voz, não podiam ter opinião. Nunca seriam alguém, para além de esposas e cuidadoras dos filhos. Esse era o seu papel e não se esperava nada de diferente. Por isso, quando alguma mulher ascendia a um cargo tipicamente masculino, quando se destacava de alguma forma, não eram vistas como verdadeiras mulheres - a sociedade retirava-lhe toda a feminilidade ou marginalizava-as. 

Pois as mulheres em 1956 estavam sempe a confrontar limites, negociações: onde podiam ir à noite, até onde podiam deixar um homem ir quando os dois se encontravam a sós. Os homens mal pareciam perturbar-se com essas coisas; vagueavam por todo o lado em cidades frias e escursas, por ruas desertas onde se daria por um alfinete a cair, e permitiam às mãos que vagueassem, também, abriam os cintos e depois as calças, sem nunca pensarem: Tenho de parar isto agoa. Não posso avançar mais.

O enfoque da crítica do livro é ainda maior na sociedade literária, tipicamente masculina, com dificuldade em reconhecer novos autores e sem atribuir importância à mulher. Alías, os poucos livros que na altura surgiam escritos por mulheres eram considerados "literatura menor", com pouco conteúdo e matéria, como se só os homens pudessem pensar, exprimir opiniões ou ter uma escrita complexa. 

Dos homens que escrevem as críticas, que dominam as editoras, que publicam os jornais, as revistas, que decidem quem deve ser levado a sério, quem é posto num pedestal para o resto da vida. 

Gostei bastante da escrita da autora, dos temas abordados e desta contextualização tão bem feita e característica da época. Ainda assim, é impossível não ler este livro e não associar com a atualidade - apesar de já termos evoluído muito, ainda continua a existir uma predominância e preferência por certos escritores (principalmente masculinos), que tudo que fazem é colocado num pedestal, mesmo que não tenha assim tanto valor. Para além disso, como é difícil para um novo(a) autor(a) entrar no mercado e conseguir singrar neste meio. Para mim, a única desilusão do livro foi que o plot twist final já era esperado desde o início. Pelo menos, eu passei o livro todo à espera desse momento. Achei que podia ser uma revelação mais subtil.

Não vou contar, para não estragar a surpresa da leitura a quem quiser dar uma oportunidade! No geral, um bom livro. 

Avaliação: 7/10