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Clarabóia

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10.02.22

A Desumanização | Valter Hugo Mãe


Raquel Patrício

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Há tanto mas tanto tempo que queria ler algo do Valter Hugo Mãe (VHM)! Finalmente, chegou o dia! Ainda há uns tempos ouvi o episódio dele no podcast da Bumba na Fofinha, o Reset, e fiquei fascinada com o processo de escrita do autor. VHM revelou ser um pouco maníaco pela perfeição e nunca estar satisfeito com o que escreve, ao ponto de demorar anos para escrever um livro porque procura sempre a melhor versão do mesmo. Quando decide escrever uma nova versão do livro, abandona por completo a primeira, elimina o ficheiro e começa de novo. Depois do livro ser lançado, nunca mais o lê, pois sente que ficaria desiludido. É engraçado como esta densidade de pensamento transparece nitidamente para a escrita do autor. Pelo menos, neste livro, achei. A linguagem é extremamente cuidada e delicada, elaborada e profunda.

O enredo desenrola-se na Islândia. Halldora, mais conhecida por Halla, é apenas uma menina de 11 anos quando perde a sua irmã gémea, Sigridur. A história não tem propriamente uma ação, acompanhámos a passagem do tempo sob o ponto de vista desta personagem e da sua perceção de como os restantes membros da família estão a lidar com o luto. Para Halla, esta perda foi ainda mais brutal, por ser tão nova e ter uma ligação tão especial com a irmã. 

Aprender a solidão não é apenas capacitarmo-nos do que representamos entre todos. Talvez não representemos nada, o que me parece impossível. Qualquer rasto que deixemos no eremitério é uma conversa com os homens que, cinco minutos ou cinco mil anos depois, nos descubram a presença. Dificilmente se concebe um homem não motivado para deixar rasto e, desse modo, conversar. E se houver um eremita assim, casmurro, seguro que terá pelo chão e pelo céu uma ideia de companhia, espiritualizando cada elemento como quem procura portas para chegar à conversa com deus. Estamos sempre à conversa com deus. A solidão não existe. É uma ficção das nossas cabeças.

Na minha opinião, não é um livro fácil de avançar pois não tem uma ação dinâmica, que nos impele a ler sempre mais uma página, e tem uma escrita tão densa que nos obriga a ler (e reler) com toda a atenção, várias vezes os mesmos parágrafos. Contudo, a delicadeza das palavras é tão bonita que quase parece que estamos a ler poesia. Acho mesmo que é um livro para ser saboreado e não para ler "à pressa". Só lendo várias vezes cada frase é que conseguimos retirar todos os sentidos que estão imbuídos nas palavras. 

Por aqui, fãs de VHM? Qual livro me aconselham a ler a seguir, do autor?

Avaliação: 7,5/10

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